Eng. Brenda Manuel Enez – Engenheira de Gabinete Técnico
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O ponto de partida: um modelo energético insustentável
A comunidade de Monte Trigo, localizada na costa ocidental da ilha de Santo Antão (Cabo Verde), constitui um assentamento rural isolado, com recursos limitados e uma população dependente principalmente da pesca artesanal e do turismo local.
Antes de 2012, o acesso à energia era precário: os habitantes dependiam de geradores a diesel com um fornecimento descontínuo de apenas algumas horas por dia, o que restringia o desenvolvimento social e económico.
2012: o início de uma nova etapa energética
Em 2012, a instalação de uma central fotovoltaica comunitária realizada pela APP permitiu a eletrificação total da aldeia durante as 24 horas do dia, tornando Monte Trigo a primeira comunidade cabo-verdiana totalmente abastecida com energia renovável. Esta conquista impulsionou melhorias significativas na qualidade de vida, na educação, na saúde e na produtividade local.
No entanto, após uma década de crescimento demográfico e turístico, a procura energética superou a capacidade do sistema existente, gerando limitações na disponibilidade de energia e reduzindo a possibilidade de alimentar novas infraestruturas, como sistemas de água ou refrigeração para a pesca.
Atualmente, o fornecimento é mantido através de uma combinação entre instalação fotovoltaica e gerador a diesel, garantindo cobertura parcial, mas com margem limitada para expansão.
Um plano integrado para transformar a infraestrutura de Monte Trigo
Em 2021 foi elaborado o Plano Diretor de Infraestruturas de Água e Energia para a Aldeia de Monte Trigo, que hoje constitui a base técnica e documental para a mobilização de financiamento. O plano organiza os investimentos em três fases:
Fase 1
Produção e armazenamento de água potável, ampliação do parque fotovoltaico, modernização da rede elétrica e adoção de embarcações elétricas.
Fase 2
Implementação da rede de distribuição de água potável.
Fase 3
Construção da rede de esgoto, estações elevatórias, estação de tratamento de águas residuais, armazenamento de água recuperada e unidade de secagem e compostagem de lamas.

Monte Trigo após a intervenção da Águas de Ponta Preta, tornando-se a primeira aldeia com consumo elétrico 100% proveniente de energias renováveis.
O projeto avança através de um modelo de financiamento multilateral que integra o Governo, o GEF/UNIDO, a Câmara Municipal e a APP, um modelo especialmente relevante porque fortalece a cooperação institucional e permite alinhar esforços técnicos, sociais e ambientais em torno de um mesmo objetivo de desenvolvimento para a comunidade.
O desafio hídrico de Monte Trigo
A comunidade enfrenta uma grave limitação no acesso à água potável segura. As fontes locais apresentam concentrações elevadas de flúor e outros parâmetros fora dos padrões, além de dependerem de precipitações irregulares. Isto gera riscos sanitários, sobrecarga das tarefas domésticas — especialmente para mulheres e jovens — e vulnerabilidade perante períodos de seca.
A evolução do projeto: da eletrificação à segurança hídrica
Este ano, a Lente Ingenieros assume o desafio de ampliar a capacidade energética e dotar Monte Trigo de um sistema de água dessalinizada 100% alimentado por energia solar, o que representou um dos maiores desafios da minha carreira profissional.
O projeto exige equilibrar a inovação tecnológica com a preservação e otimização do sistema existente, assegurando que cada melhoria fortaleça a sustentabilidade sem comprometer a estabilidade da rede atual.
Este projeto faz parte da 1ª fase do Plano Diretor, que contempla o desenvolvimento do ciclo integral na aldeia.
Para responder às necessidades, o projeto procura ampliar a capacidade de geração fotovoltaica através da instalação de 164,6 kWp e reforçar o sistema de armazenamento com mais 774 kWh, garantindo um fornecimento energético contínuo 24 horas por dia para as habitações e serviços comunitários.
De forma complementar, será implementada uma unidade de dessalinização de água do mar com capacidade de 25 m³/dia, capaz de abastecer toda a população com água potável segura, eliminando a dependência de fontes inseguras e melhorando substancialmente a qualidade de vida da comunidade.

Projeto para ampliar a capacidade energética e o sistema de dessalinização de Monte Trigo, alimentado 100% por energia solar, desenvolvido pela Lente Ingenieros.
Mais do que tecnologia: impacto real na comunidade
Este projeto combina um sistema de dessalinização alimentado 100% por energia solar, eliminando o uso de combustíveis fósseis e reduzindo significativamente as emissões de gases poluentes.
A energia fotovoltaica permitirá que cada gota de água chegue às habitações de forma eficiente e contínua. O desenho incorpora baterias para armazenamento energético, assegurando um fornecimento estável mesmo em dias com menor radiação solar e garantindo fiabilidade perante variações climáticas. Esta abordagem exige um dimensionamento preciso dos sistemas de bombagem e armazenamento, de modo que a energia solar cubra toda a procura da aldeia sem depender de fontes externas.
Mais do que engenharia, o projeto tem um impacto social notável: garante água segura para as famílias, promove o desenvolvimento económico e melhora o bem-estar da comunidade. Monte Trigo torna-se um modelo replicável de inovação sustentável, demonstrando que é possível garantir simultaneamente água potável e energia limpa em comunidades isoladas.

Evolução do projeto de Monte Trigo nas áreas de água e energia. Inclui o resumo da situação anterior à intervenção de 2012 da Águas de Ponta Preta, a situação atual e o plano diretor que a Lente Ingenieros irá executar nos próximos meses.
Mais sobre os projetos da Lente Ingenieros y Grupo Impulso
Mais sobre o projeto SESAM-ER em ilhas hiper-isoladas no site da Águas de Ponta Preta
