Emilio Marte – Especialista em Execução de Obras Civis
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Santa Maria, um dos principais polos turísticos de Cabo Verde, registou nos últimos anos um crescimento acelerado que colocou à prova a capacidade do seu sistema de saneamento. A pressão urbanística, a expansão hoteleira em Ponta do Sino e o aumento das atividades económicas ligadas ao turismo e à agricultura intensiva obrigaram a modernizar e ampliar a infraestrutura hidráulica existente.
Neste contexto, a ETAR de Santa Maria, construída em 2010 como núcleo do sistema de tratamento de águas residuais da ilha, tornou-se uma instalação fundamental para garantir a sustentabilidade ambiental e o abastecimento de água regenerada num território com recursos hídricos limitados.
Um projeto estratégico: do planeamento à execução
Após um longo processo para a elaboração do projeto de execução para a ampliação do sistema de saneamento da cidade de Santa Maria, bem como para a obtenção das respetivas autorizações e licenças, em dezembro de 2019 teve início a execução da obra, momento em que me integrei na equipa da Lente Ingenieros com a função de exercer a Direção de Obra, para a execução das infraestruturas.
Esta obra foi realizada maioritariamente com financiamento bancário. Este modelo de financiamento foi fundamental para garantir a viabilidade económica do projeto, permitindo assegurar a execução das infraestruturas hidráulicas previstas.
Infraestruturas ampliadas para um sistema mais robusto e eficiente
A ampliação da ETAR, juntamente com a construção da nova Estação Elevatória de Ponta Sinó e o desenvolvimento de uma linha avançada de tratamento através de ultrafiltração e osmose inversa, permitiu dotar o município de uma infraestrutura mais robusta, eficiente e preparada para o cenário de procura futura. Este conjunto de intervenções não procurou apenas aumentar o caudal tratado, mas também otimizar os processos, melhorar a qualidade do efluente e assegurar a produção contínua de água adequada para rega agrícola, espaços verdes e utilizações industriais.
Um desafio em plena pandemia: coordenação, logística e resiliência
Assumir a direção de obra desta ampliação foi especialmente desafiante devido ao período da COVID-19, que gerou limitações no transporte aéreo e marítimo de equipamentos, restrições à mobilidade do pessoal técnico e um aumento dos custos dos materiais.
Superar estas dificuldades, mantendo a ETAR em funcionamento e garantindo a segurança e a qualidade do tratamento, foi um dos maiores desafios da minha carreira profissional. O planeamento, a coordenação e a supervisão técnica foram essenciais para integrar inovação tecnológica com eficiência operacional, assegurando que cada intervenção reforçasse a sustentabilidade do sistema existente.
Capacidades ampliadas e processos avançados de tratamento
A rede de coletores de águas residuais, que atualmente se estende por mais de 13 km e liga toda a população através de seis estações elevatórias, evoluiu para dar resposta à crescente procura, tendo a ETAR de Santa Maria como núcleo central do tratamento. A ampliação realizada aumentou a capacidade de tratamento de 2.500 m³/dia para 3.750 m³/dia, com uma projeção de 5.000 m³/dia, incorporando processos avançados de tratamento biológico (SBR) e terciário.
Tratamento terciário:
Sedimentação lamelar, filtração e desinfeção por UV, gerando água regenerada adequada para a rega de zonas ajardinadas e de lazer.
Tratamento de água regenerada:
Ultrafiltração e osmose inversa, obtendo água ultrafiltrada para utilização agrícola convencional e água desmineralizada para técnicas avançadas de hidroponia e utilizações industriais, como a produção de betão.
Digitalização e controlo inteligente
O projeto inclui uma digitalização completa do sistema: sensores de nível, pH e condutividade, variadores de frequência, automatização e controlo remoto (SCADA), permitindo uma gestão inteligente das instalações e uma capacidade de intervenção imediata perante qualquer ocorrência.
Isto garante eficiência energética, fiabilidade e um controlo rigoroso da qualidade da água regenerada, que pode ser destinada à rega agrícola, espaços verdes e processos industriais.
Sustentabilidade e energia renovável
A sustentabilidade foi um eixo central do projeto, com a integração de energias renováveis. A ETAR dispõe de um sistema fotovoltaico de 300 kWp, distribuído por 6 instalações solares estrategicamente localizadas, com o objetivo de otimizar a captação da radiação solar e reduzir o consumo elétrico da estação. A instalação principal, localizada em Terreno, dispõe de 432 painéis orientados a sul, com uma potência de pico de 177 kWp, enquanto os restantes painéis estão instalados nas coberturas dos edifícios, totalizando 132,8 kWp.

Ampliação da ETAR de Santa Maria e modernização do ciclo da água
O sistema inclui 3 inversores SMA, que permitem a conversão eficiente da energia de corrente contínua para corrente alternada, bem como um gestor de dados digitalizado, que monitoriza continuamente a produção e o consumo de energia, otimizando a utilização da rede elétrica.
Durante as horas de sol, a instalação pode cobrir 100% da procura energética, enquanto, ao longo do dia, o sistema permite reduzir até 40% o consumo de energia da rede, diminuindo a pegada de carbono da estação e contribuindo para a sustentabilidade do projeto. Além disso, o sistema fotovoltaico alimenta um ponto de carregamento para veículos elétricos, reforçando o compromisso da ETAR com a transição energética e a mobilidade sustentável.
Para além da engenharia, este projeto tem um impacto social e económico relevante: assegura a disponibilidade de recursos hídricos de qualidade para a população, promove o desenvolvimento agrícola e turístico e consolida Santa Maria como um exemplo de inovação na gestão de águas residuais e na produção de água regenerada. Liderar esta obra foi uma oportunidade única para combinar experiência técnica com visão estratégica, contribuindo com soluções sustentáveis que melhoram a qualidade de vida da comunidade.

